Deixa-me Entrar

Parece-me que ninguém poderá ficar indiferente ao magnífico filme sueco Deixa-me Entrar. Realizado por Thomas Alfredson e escrito por John Ajvide Lindquist, Deixa-me Entrar conta a história de Oskar, um rapaz de 12 anos, ostracizado por um grupo de colegas de escola que se apaixona por Eli, uma menina vampira com 200 anos. Eli vai ajudar Oskar a ultrapassar os seus medos, a crescer, a ficar mais forte e confiante, ao ponto de conseguir enfrentar a crueldade dos colegas. Oskar oferece a Eli a aceitação e o afecto por alguém que não se pode mostrar à luz do dia, que se alimenta do sangue dos outros e cuja natureza parece impossibilitar a relação amorosa.

Com um registo cinematográfico impecável e excelência na interpretação, Deixa-me Entrar é um convite à reflexão sobre a possibilidade de deixarmos entrar na nossa vida alguém completamente diferente de nós e de nos apaixonarmos não obstante a diferença. Deixa-me Entrar é um filme sobre a essência do amor ou sobre a possibilidade e poder transformador da relação amorosa.

O filme evoca a nostalgia do amor adolescente num estado puro, absolutamente capaz de ultrapassar todas as barreiras e em particular  todas as diferenças. O amor que nos torna mais fortes, mais destemidos e capazes. O amor que cria sentido, que nos salva da apatia, da tristeza, do desespero e especialmente da solidão. Afinal Eli e Oskar estão sozinhos no mundo. Deixa-me Entrar representa também o paradigma do amor idealizado na sociedade contemporânea. O amor como salvação da solidão, o amor que nos liberta do quotidiano, o amor que resolve a diferença.

Oskar é o estereótipo do adolescente de hoje, a viver nos subúrbios duma grande cidade, filho de pais divorciados, com os quais tem uma relação emocionalmente distante mesmo quando procura aproximar-se do pai. Oskar está entregue a si próprio. Está abandonado. Nos antípodas do distanciamento e conduta mecânica e moralista da mãe de Oskar, a existência do pai de Eli circunscreve-se e anula-se na procura do sangue que alimenta a filha. O pai de Eli está encarcerado no seu amor incondicional de pai, do qual acabará por ser vítima.

O amor é retratado como incondicional e vampiresco. É o amor que nos eleva, nos salva e nos despedaça. O amor por uma vampira é também o amor que só tem existência numa dimensão transcendental e desde logo idealizada. Apesar de seguir a tradição clássica dos filmes de vampiros, Deixa-me Entrar ganha uma enorme pertinência na forma como nos confronta com a nossa percepção do amor e do fascínio que a relação amorosa exerce sobre nós como solução para os nossos problemas. Cada vez mais o amor é percepcionado como elemento mágico, idealizado, substituto da religião e da crença em algo superior que nos vai salvar.

As dificuldades em estabelecer e permanecer na relação intima estão muitas vezes associadas a esta ideia de amor. Um amor que surge de forma miraculosa e não um amor que se constrói, que cresce, que só existe porque foi investido de experiências e contradições. As dificuldades na relação com o outro surgem muitas vezes porque queremos alguém que nos espelhe ou que seja como nós idealizámos. É talvez por isso que a beleza perturbadora e comovente do amor de Eli e Oskar surge nos aspectos para nós paradoxais e transgressores da entrega e aceitação sem limites da diferença do outro.

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Amor, Destruição e Transcendência

 

Na cultura ocidental a ideia do amor é muitas vezes conotada com uma dimensão trágica e uma dimensão transcendental. Estas dimensões estão relacionados com o lado destrutivo do amor ou com a ideia da morte oposta ao amor enquanto expressão maior da vida. A mitologia grega talvez represente da melhor forma estes princípios que ainda hoje se encontram enraizados na nossa forma de ver as relações amorosas. Afinal foi a beleza encantatória de Helena que levou Páris a apaixonar-se, a raptar Helena e a ser perseguido por mil navios que deram origem a uma longa guerra que o levou à  morte bem como à destruição de Tróia.

Para os Gregos da Antiguidade bem como para nós o amor está intrinsecamente ligado a poder, conflito, destruição e transformação. É através do amor que o indivíduo procura um sentido para a vida e se defende da ansiedade provocada pela morte. O amor incita-nos a enfrentar  o mundo mas também provoca as dores mais difíceis de tolerar e a iminência da destruição duma parte ou mesmo da totalidade de nós próprios. Medeia mata os filhos por não conseguir tolerar a raiva que sente por ter sido abandonada pelo pai destes, Jasão. A única saída que encontra para resolver a dor resultante do sentimento amoroso é a destruição da expressão concreta desse amor, nem que para isso tenha de transgredir as regras sociais mais essenciais e destruir uma parte fundamental de si própria.

O filosofo francês Bataille (1957/1988) descreve o ser humano como um ser descontínuo em busca de continuidade através do acasalamento e do amor, cuja componente sexual e de reprodução encerram em si mesmas a génese da sua própria destruição e transcendência. Para Bataille, quando procuramos transcender os nossos limites na relação com o outro, está presente uma componente agressiva expressa no acto sexual, na reprodução e nas situações em que estão em causa os limites individuais da nossa descontinuidade. Quando fazemos amor ou nos degladiamos na guerra, estamos a transgredir os limites de nós próprios e do outro e a aproximarmo-nos da morte. Não é por acaso que durante os períodos de guerra ou imediatamente a seguir os indíces de fertilidade aumentam sugerindo que  a iminência da morte do outro instila o desejo de reprodução e continuidade.

Segundo Bataille, a relação amorosa e em particular o erotismo têm um lado transgressor na medida em que promovem a continuidade entre seres individuais ou descontínuos, necessária à procriação num percurso em direcção à morte, estádio último de continuidade e transcendência. Tal como na mitologia grega, o amor e o erotismo contêm elementos transgressores e destrutivos que conferem à relação amorosa a possibilidade de transcendência dos limites do indivíduo, quer em termos físicos, como em termos espirituais e psicológicos.

Um dos autores mais reputados no estudo das dinâmicas relacionais, David Schnarch (1991), demonstra como o amor pode conter um potencial destrutivo mediante a forma como o indivíduo se diferenciou da sua família de origem e projecta na relação com o outro, aspectos não resolvidos durante o seu desenvolvimento.

Segundo Schnarch, a separação não resolvida com a mãe, poderá levar a um desejo de fusão com o parceiro(a) ou a ver o outro como extensão de si próprio. Situação muito comum no contexto português, em que os filhos são criados essencialmente pelas mães (esta tem sido a prática mais corrente) e permanecem na casa dos pais depois de atingirem a idade adulta. Com frequência os filhos adultos dividem as suas atenções entre as mães e os parceiros(as) permitindo uma intromissão inadequada destas na dinâmica relacional. Por outro lado, as mães latinas tendem a recorrer a estratégias muito subtis que reforçam o seu poder junto dos filhos, não os deixando crescer e tornarem-se verdadeiramente autónomos. São exemplos destas estratégias a vitimização, a rivalidade com as noras ou genros em termos de influência e opiniões sobre os mais diversos assuntos, a exigência de compromissos (deveres) familiares, o cuidar dos netos ou a prestação de favores que reforçam o sentimento de dívida para com os pais.

Outros aspectos considerados problemáticos por Scharnch são a falta de gratificação narcísica durante a infância que poderá “desviar” a pessoa para um desejo permanente de sentir-se especial ou superior aos outros e tender a procurar a pessoa perfeita que resulta da projecção dessa defesa. Esta estratégia conduz a uma insatisfação recorrente na relação, com frequentes boicotes inconscientes que acabam por destruir a relação.

No extremo oposto, a criança muito gratificada e sobreprotegida tenderá a ficar dependente da aprovação e atenção do outro na relação e a tornar-se muito reactiva quando as suas necessidades não são atendidas, passando a agir duma forma agressiva de que são exemplo as “birras” ou “ataques de ciúmes”.

Em suma, muitas vezes os casais lutam por gratificação e validação mútuas através da forma como projectam no outro aspectos mal resolvidos no seu desenvolvimento ou decorrentes de situações de negligência ou abuso. Por outro lado, estas lacunas podem conduzir a comportamentos agressivos muitas vezes despropositados porque são induzidos de forma inconsciente.

Segundo Scharchn, as pessoas mais diferenciadas tendem a auto-validar-se em lugar de se validarem através do outro e assim toleram melhor a sua ansiedade em lugar de a projectarem sob as mais variadas formas na outra pessoa, ou a assumirem personalidades parcialmente diferentes dentro e fora da relação.

Na opinião deste autor,  a intimidade e o erotismo são potenciados pelo nível de diferenciação que permite um grau de entrega na relação capaz de ultrapassar os medos inerentes à aparente perda da individualidade ou experiência da continuidade descrita por Bataille. Nestes casos, a intimidade passa a ser extremamente gratificante e reafirmativa, e não destrutiva. Tal como na mitologia grega, o amor pode ser fonte de destruição e conflito mas também de transcendência e transformação.

Referencias

Bataille, G. (1988). O Erotismo (Costa, J., B., Tradução) Lisboa: Antigona. (obra original publicada em 1957).

Schnarch, D. M. (1991). Constructing the sexual crucible: An integration of sexual and marital therapy. New York: Norton Company, Inc.

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Infidelidade na Internet

 

Somos um casal jovem (de 29 anos), casados há 4 anos. Considero que sempre tivemos uma vida sexual activa normal, è verdade.

Em Novembro do ano passado descobri que o meu marido tinha umas experiências, que para mim não são normais!! Deste modo, descobri que ele via sites/vídeos pornográficos (isto eu sabia que ele “gostava” de o fazer de vez em quando!!!), mas o que eu achei mais estranho foi o facto de ele se masturbar enquanto o fazia!!! Descobri também que se inscreveu num site (adultfindfriend), procurando mulher entre os 18-30 anos para sexo a dois!!

Obviamente quando vi isto fiquei chocada!! Jamais imaginei que seria capaz disso, senti-me traída!!

Confrontei-o com a situação, e ele disse-me que era “normal, é curiosidade”!

Não me parece que seja normal, e parece-me que é “curiosidade” a mais. 

Eu quero pensar que isso foi uma fase, que passa, e que ele nunca teve intenção de me magoar. Mas, fê-lo, e desde então, que de vez em quando este fantasma me assombra!!!

Surge com frequência a questão das fantasia sexuais no contexto da relação e como estas podem ser geridas pelo casal. Na fase do enamoramento, as pessoas estão completamente centradas no outro, não havendo grande espaço para fantasiar sobre outra pessoa que não seja o amado ou a amada. Contudo, este período tem uma duração limitada que pode ir no máximo até aos 2 anos, conforme indicam vários estudos nesta área.

Durante a fase do enamoramento, desenvolve-se o vínculo afectivo que permitirá o crescimento da relação e a ambos os indivíduos serem capazes de aceitar e tolerar as verdadeiras características do outro, passando assim duma fase romântica a um entendimento mais real da pessoa amada.

Por outro lado, surgem com maior visiblidade os aspectos negativos da outra pessoa e o casal entra numa fase de maior rotina muitas vezes associada à decisão de se casar ou viver juntos. A possibilidade de estabelecer uma relação de forma mais séria e durável implica a iminência da perda da individualidade e pode dar origem a estratégias várias que se constituem como obstáculos ao crescimento da relação.

As dificuldades em permanecer e investir na relação estão normalmente relacionadas com estratégias interiorizadas na família de origem e pela forma como foi desenvolvida a personalidade e identidade da pessoa ao longo do tempo, bem como influências do meio exterior, sociais e culturais.

Exemplos comuns das  dificuldades em permanecer na relação são os sintomas fóbicos, ou seja, medos irracionais do que poderá acontecer se o indivíduo ficar somente com uma pessoa. São exemplos destas fobias, o sentir-se sufocado pela relação, sentir que se perdeu a liberdade individual, ou ainda sentir que não se experimentou o suficiente para dar um passo mais sério. O compromisso com alguém leva a pessoa a recear que a sua identidade se dilua chegando mesmo ao ponto de não se reconhecer se for fiel a uma só pessoa. Em suma, o indivíduo receia que se perca uma parte fundamental de si próprio se decidir investir numa relação com alguém.

Outras estratégias mais complexas estarão relacionadas com as formas como o inconsciente boicota a experiência relacional com base em experiências traumáticas que aconteceram no passado. Nestes casos, a pessoa tenderá a boicotar a relação com receio de ser abandonada ou para evitar cenários de grande decepção ou sofrimento. Noutras situações, o indivíduo não se valoriza o suficiente (baixa auto-estima), o que o leva a não valorizar quem gosta de si e consequentemente as relações que lhe proporcionam bem-estar e estabilidade, ou por outro lado, a permitir cenários de abuso e maltrato.

Todas estas variáveis poderão participar em dinâmicas complexas que levam muitas pessoas a perder o desejo na relação ou a procurar através da fantasia sexual com o outro sabotar a mesma e logo sabotar-se a si próprias. Mas a fantasia sexual com o outro não significa necessariamente que a pessoa  não deseje permanecer na relação ou que esteja a pôr em causa o compromisso que assumiu.

Quando se está em relação, não se fica cego ou surdo relativamente aos outros e às fantasias com outros. O que se torna importante é a forma como se enquadram esses pensamentos e é possibilitada a sua emergência no contexto relacional.

Quando a relação não corre bem, as pessoas tendem a procurar outros pontos de apoio ou escapes, como forma de evitar o stress ou sentimentos negativos provocados pela dinâmica relacional. Nestes momentos, a fantasia sexual com o outro reforça o ego do indivÍduo na medida que lhe assegura a sua própria validade através da capacidade de seduzir alguém diferente e a possibilidade, mesmo que remota, de poder deixar o parceiro(a). A ideia de que existe sempre alguém melhor que vai resolver os nossos problemas pessoais ou relacionais acaba por evitar que a pessoa desenvolva a necessária tolerância à frustração, resultante de lidar com os aspectos negativos do outro e dela mesma e aceite permanecer na relação com uma só pessoa, sem se sentir vulnerável por isso.

Se poderá ser admissível, e  essa será uma condição a negociar na relação, cada membro do casal poder visionar e desfrutar de pornografia a título individual — não me parece que esta condição constitua em si mesma um problema, quando ambos estão seguros da sua sexualidade e da vontade de estar com o outro.

Quando uma das pessoas decide passar várias horas em frente ao computador e no caso do marido da leitora, procurar explicitamente um encontro com alguém, ele poderá estar ou não a trair a companheira, dependendo do seu conceito de fidelidade e do que este representa para a relação. Muitas vezes o conceito de fidelidade não se aplica da mesma forma para um e para o outro, sendo frequente as pessoas serem mais indulgentes consigo mesmas. Será que o seu marido também aceitaria o mesmo comportamento da sua parte?

A leitora sentiu-se traída e esse sentimento é suficiente para poder confrontar o seu marido e esclarecer o modo como a fidelidade é entendida na relação. E quando ele vê as imagens no computador ou se masturba, também se sente igualmente traída? O que a leva a querer controlar os momentos a sós do seu marido? Será que já se sentia insegura na relação antes de descobrir as fantasias do seu marido? Como estão as suas necessidades a ser atendidas na relação?

De alguma maneira, na situação descrita, o seu marido poderá estar a testá-la quanto à sua capacidade para aceitar este tipo de comportamento e o conceito de fidelidade que lhe está inerente. Mas esta forma de o fazer também poderá revelar a dificuldade que o seu marido poderá ter em comunicar consigo sobre aspectos que não correm bem na vida do casal ou não ter consciência de aspectos internos que possam estar a sabotar a relação.

Caberá a ambos decidir em que termos aceitam ter a relação e qual o tipo de  fidelidade esperada, discutindo abertamente sobre o assunto. A confrontação com o outro é necessária para que seja claro o que está em jogo e as opções que se oferecem ao casal. Neste processo poderá ser útil o recurso à terapia individual ou de casal, para melhor avaliar a situação e os recursos disponíveis para encontrar soluções para os problemas.

Muitas vezes os casais presumem que existe um paradigma erótico para a relação que é o paradigma de quando estão apaixonados, tornando os estádios posteriores da relação sempre menos estimulantes e eróticos. Por outro lado, o modelo de relação dos pais surge muitas vezes como uma experiência não erótica e uma vida de casal rotineira, pouco estimulante e satisfatória. Na verdade, se o investimento colocado na procura de estímulos exteriores for canalizando para a procura de soluções imaginativas e lúdicas na vida do casal, a relação irá fortalecer-se e ganhar maior profundidade e satisfação.

Estar em relação é também uma opção que implica cedências, esforço, adaptação ao outro e mudanças em nós próprios. Mas este desafio constante, a longo prazo, acaba por ser mais gratificante do que a fantasia do que poderíamos ser e fazer, no mundo virtual das nossas projecções.

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Vida Sexual Pós-Parto

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A Co-Dependência, Amor ou Maldição?

 

A entrega incondicional na relação amorosa desde há muito que se tornou um arquétipo universal, cantado pelos poetas, empolado nos romances e ilustrado no cinema ou no teatro em cenas dramáticas que nos comovem a todos, tal é o nosso desejo de sermos assolados por um  sentimento amoroso tão avassalador.

Na realidade, a entrega sem limites ao outro tem consequências nefastas para o próprio e revela diversas fragilidades justificadas pela intensidade do sentimento amoroso. Gradualmente a pessoa anula-se na relação para poder servir os interesses da pessoa amada, funde-se com ela chegando mesmo a perder a sua própria identidade, enquanto reclama não sentir da outra parte o mesmo empenho e devoção.

A organização da vida de alguém em torno da pessoa amada ao ponto de tornar inconcebível a sua existência sem o outro é uma forma de dependência semelhante à dependência de drogas ou álcool, cujo carácter destrutivo requer tratamento e prevenção.

Desde o final dos anos 70 que surgiu no meio da psicoterapia o conceito de co-dependência inicialmente usado para descrever as pessoas cuja vida era afectada por alguém dependente de drogas ou álcool. Este conceito teve origem nos Alcoólicos Anónimos que organizaram grupos de auto-ajuda para apoiar os cônjuges de pessoas dependentes do álcool, os Al-Anon. 

Estas pessoas eram caracterizadas por procurarem relações com pessoas dependentes de substâncias na medida que estas suscitariam comportamentos co-dependentes. Estes comportamentos incluíam uma enorme reactividade, necessidade permanente de controlo do outro, baixa auto-estima e esvaziamento emocional da pessoa co-dependente.

Este conceito rapidamente se alargou a  pessoas que estabelecem relações em que ficam obsessivas em controlar o comportamento do outro, esquecendo-se de si próprias e do que as terá levado a agir desta forma.

As pessoas co-dependentes sentem-se incompletas sem o parceiro(a). Têm pouco amor-próprio, são muito auto-críticas e sentem-se magoadas facilmente. Por estas razões os co-dependentes são muito reactivos às atitudes e comportamentos do outro, têm dificuldades em expressar certo tipo de sentimentos em que julgam ficar demasiado expostos ou vulneráveis. Por consequência, estas pessoas têm dificuldade em pedir ajuda, em reconhecer os seus erros e olhar para as suas feridas. Tudo porque têm medo de perder o controle. O controle sobre si próprias que é assim assegurado através do controle do outro.

Os co-dependentes tentam reforçar a sua auto-estima ajudando os outros a resolver os seus problemas, nem que para isso tenham de comprometer a sua integridade e os seus valores. Os co-dependentes têm dificuldade em dizer que não, têm relações sexuais sem vontade, despendem demasiado tempo a dizer que tudo vai bem.

Numa fase inicial, os co-dependentes dedicam-se a tentar “salvar o outro”, zelando quase religiosamente pelos seus interesses, tomando para si a responsabilidade das suas acções, pensando por eles, sofrendo as consequências do seu comportamento. Posteriormente, os co-dependentes zangam-se com os outros pela falta de gratidão e reconhecimento, chegando ao ponto de sentir uma raiva incontrolável sobre os outros e sobre si próprios.

Este ciclo deixa a pessoa co-dependente ainda mais frágil porque deu tudo e afinal não mudou nada. Na verdade, a pessoa co-dependente ajuda o outro a perpetuar os seus problemas e a desresponsabilizar-se dos seus actos. Quando estas relações atingem um ponto de  ruptura, a pessoa co-dependente tende a procurar outra pessoa problemática para dar início a um novo ciclo.

A recuperação da co-dependência inicia-se pela tomada de consciência de que a pessoa precisa de centrar-se em si mesma, desprendendo-se da adição ao outro, procurando ajuda para identificar as suas vulnerabilidades e os vazios que tenta preencher através da dedicação aos outros. Quando as pessoas começam a gostar de si mesmas, a cuidar das suas feridas e a sará-las, quando aprendem a expressar os seus sentimentos e necessidades de forma adequada, as pessoas ganham noção dos seus limites e ganham perspectiva sobre si próprias.

Quando as pessoas gostam de si mesmas vão tender a procurar pessoas que as valorizem e respeitem pelo o que elas são. O ciclo da co-dependência pode ser interrompido e desfeito quando a pessoa co-dependente compreende que a resolução do seu problema reside em si próprio. Reside em tomar responsabilidade por si, tomar conta da sua vida e assim ficar disponível para poder verdadeiramente amar.

 

Sugestão de leituras sobre este tema:
“Vencer a Co-Dependência - Como Deixar de Controlar os Outros e Cuidar de Si”, Melody Beattie, Sinais de Fogo
“Mulheres que Amam Demais”, Robin Norwood, Sinais de Fogo

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Vida Dupla

Tenho 45 anos, sou casado e tenho um filho. Tive a minha primeira relação com um rapaz, tinha eu 12 anos, sempre tive atracção pelo sexo masculino, casei com 21 anos, pensava que os meus desejos e pensamentos eram apenas fantasias malucas. Vivo num eterno conflito comigo mesmo. Às vezes penso que vou explodir, tenho desejos fortes incontroláveis, já pensei em me assumir, mas ao mesmo tempo tenho muito medo em tomar uma decisão precipitada.

Muitas pessoas apresentam conflitos que resultam das suas opções não serem coerentes com os seus desejos internos. Ao contrário do que alguns pensam a orientação sexual não é uma opção mas um processo interno que se define ao longo do desenvolvimento do individuo. Os desejos e fantasias do leitor apontaram desde cedo para uma direcção homossexual que foi mesmo concretizada e posteriormente transformada numa fantasia para que pudesse viver de acordo com o que era esperado por si socialmente.

Esta condição a que muitos se submentem acaba por causar grande sofrimento para a pessoa e sentimentos contraditórios. O indivíduo sente-se desonesto consigo mesmo e com os outros o que provoca um descomforto permanente e a sensação duma vida dupla. Paradoxalmente, o desejo reprimido acaba por ser muito dificil de tolerar levando a que muitos individuos optem por enfrentar os obstáculos inerentes à assunção duma orientação sexual diferente.

O leitor deverá ponderar sobre as consequências de se assumir ou não se assumir numa perspectiva da sua vida futura como um todo. Viver de uma forma mais autêntica consigo mesmo implicará relações mais autenticas com os outros e desde logo coragem para enfrentar as mudanças que necessáriamente irão ocorrer. Por outro lado, as pessoas que gostam verdadeiramente de si permanecerão próximas. As pessoas que não o aceitarem, transportarão porventura outro tipo de conflitos ou preconceitos alheios à sua decisão. Será vantajoso o leitor recorrer a apoio psicoterapeutico, leituras sobre o tema e mesmo procurar o apoio de familiares ou amigos com quem possa partilhar as suas preocupações. Apesar das dificuldades para gerir este processo, os sentimentos de alívio, liberdade e maior congruencia justificam os meios para alcançar os fins.

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Carta dos Direitos Pessoais

  1. Eu tenho o direito de pedir o que eu quero.
  2. Eu tenho o direito de dizer “não” a pedidos e exigências que eu não posso atender.
  3. Eu tenho o direito a expressar todos os meus sentimentos - positivos e negativos.
  4. Eu tenho o direito a mudar de opinião.
  5. Eu tenho o direito de cometer erros e de não ser perfeito.
  6. Eu tenho o direito de seguir os meus valores e crenças.
  7. Eu tenho o direito de dizer “não” a tudo aquilo que eu não me sinta em condições de realizar, que seja pouco seguro ou que entre em conflito com os meus valores.
  8. Eu tenho o direito de determinar as minhas prioridades.
  9. Eu tenho o direito de não me sentir responsável pelas acções, sentimentos ou comportamentos dos outros.
  10. Eu tenho o direito de esperar honestidade dos outros.
  11. Eu tenho o direito de estar zangado com alguém que eu amo.
  12. Eu tenho o direito a ser eu próprio e a ser único.
  13. Eu tenho o direito de expressar medo.
  14. Eu tenho o direito de dizer: “Eu não sei”.
  15. Eu tenho o direito de não dar desculpas e justificações para o meu comportamento.
  16. Eu tenho direito ao meu espaço e tempo.
  17. Eu tenho o direito a ser brincalhão.
  18. Eu tenho o direito de ser mais saudável do que aqueles ao meu redor.
  19. Eu tenho o direito de sentir-me seguro e de viver num ambiente protegido.
  20. Eu tenho direito a fazer amigos e a sentir-me confortável quando estou com os outros.
  21. Eu tenho direito de mudar e de crescer.
  22. Eu tenho o direito que os outros respeitem as minhas necessidades
  23. Eu tenho o direito de ser tratado com dignidade e respeito.
  24. Eu tenho o direito a ser feliz.

(tradução de “Bill of Personal Rights”, autor desconhecido)

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Falta de Desejo

Somos um casal há dez anos. No início o desejo sexual era bastante forte, mas as coisas foram esfriando com o tempo, o que pensamos ser natural. Queríamos saber se existe alguma forma de podermos recuperar esse desejo forte um pelo outro como era no início?

É um facto que a rotina e a acomodação à vida de casal pode diminuir o desejo no casal. Não é normalmente erótico executar tarefas domésticas, discutir despesas, ver a pessoa chegar a casa cansada do trabalho. Existem no entanto várias possibilidades de “animar” o desejo num casal instalado na relação. O nosso lado erótico está intimamente associado às nossas fantasias. Poderá discutir com o seu companheiro (a) quais são as vossas fantasias e planear realizá-las, atendendo a todos os detalhes que as tornam particularmente excitantes para si e para o outro. A fantasia sexual alimenta-se da criatividade, da literatura erótica, dos filmes eróticos ou pornográficos, da observação dos outros…usar uma determinada peça de roupa pode ser extremamente erótico para o seu companheiro(a) e para si!

A fantasia erótica está muitas vezes associada a cenários de transgressão. Cada casal e cada indíviduo tem uma concepção subjectiva do que será trangressor para si a até que ponto é tolerável trangredir. Enquanto para uns, recorrer a brinquedos sexuais ou ter sexo na praia será trangressor e aceitável, para outros pode implicar outras situações de maior risco tais como sexo num lugar público. A exposição é aliás outra forma de estimular a sexualidade no casal. Ao contrário do que se poderia pensar, sairem à noite e dançarem juntos perante os olhares e desejo dos outros, acaba por valorizar e estimular o desejo pelo seu companheiro(a).

Outras receitas mais conhecidas como passar férias num sítio exótico ou um jantar romântico implicam a quebra da rotina dum casal saudável e o relembrar de como é gratificante quando o desejo se associa ao afecto pela pessoa amada. Em suma, o reanimar da sexualidade, tal como outras áreas da relação presupôem imaginação, planeamento e investimento pessoal. Contudo, as questões relacionadas com a falta de desejo poderão ter motivações psicológicas mais complexas relacionadas com a história e estrutura do indivíduo e a dinâmica da relação. Nesses casos será aconselhável consultar um terapeuta para auxiliar o casal a identificar os factores inconscientes perturbadores do desejo e encontrar formas de os contornar.

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