A Co-Dependência, Amor ou Maldição?

A entrega incondicional na relação amorosa desde há muito que se tornou um arquétipo universal, cantado pelos poetas, empolado nos romances e ilustrado no cinema ou no teatro em cenas dramáticas que nos comovem a todos, tal é o nosso desejo de sermos assolados por um  sentimento amoroso tão avassalador.

Na realidade, a entrega sem limites ao outro tem consequências nefastas para o próprio e revela diversas fragilidades justificadas pela intensidade do sentimento amoroso. Gradualmente a pessoa anula-se na relação para poder servir os interesses da pessoa amada, funde-se com ela chegando mesmo a perder a sua própria identidade, enquanto reclama não sentir da outra parte o mesmo empenho e devoção.

A organização da vida de alguém em torno da pessoa amada ao ponto de tornar inconcebível a sua existência sem o outro é uma forma de dependência semelhante à dependência de drogas ou álcool, cujo carácter destrutivo requer tratamento e prevenção.

Desde o final dos anos 70 que surgiu no meio da psicoterapia o conceito de co-dependência inicialmente usado para descrever as pessoas cuja vida era afectada por alguém dependente de drogas ou álcool. Este conceito teve origem nos Alcoólicos Anónimos que organizaram grupos de auto-ajuda para apoiar os cônjuges de pessoas dependentes do álcool, os Al-Anon.

Estas pessoas eram caracterizadas por procurarem relações com pessoas dependentes de substâncias na medida que estas suscitariam comportamentos co-dependentes. Estes comportamentos incluíam uma enorme reactividade, necessidade permanente de controlo do outro, baixa auto-estima e esvaziamento emocional da pessoa co-dependente.

Este conceito rapidamente se alargou a  pessoas que estabelecem relações em que ficam obsessivas em controlar o comportamento do outro, esquecendo-se de si próprias e do que as terá levado a agir desta forma.

As pessoas co-dependentes sentem-se incompletas sem o parceiro(a). Têm pouco amor-próprio, são muito auto-críticas e sentem-se magoadas facilmente. Por estas razões os co-dependentes são muito reactivos às atitudes e comportamentos do outro, têm dificuldades em expressar certo tipo de sentimentos em que julgam ficar demasiado expostos ou vulneráveis. Por consequência, estas pessoas têm dificuldade em pedir ajuda, em reconhecer os seus erros e olhar para as suas feridas. Tudo porque têm medo de perder o controle. O controle sobre si próprias que é assim assegurado através do controle do outro.

Os co-dependentes tentam reforçar a sua auto-estima ajudando os outros a resolver os seus problemas, nem que para isso tenham de comprometer a sua integridade e os seus valores. Os co-dependentes têm dificuldade em dizer que não, têm relações sexuais sem vontade, despendem demasiado tempo a dizer que tudo vai bem.

Numa fase inicial, os co-dependentes dedicam-se a tentar “salvar o outro”, zelando quase religiosamente pelos seus interesses, tomando para si a responsabilidade das suas acções, pensando por eles, sofrendo as consequências do seu comportamento. Posteriormente, os co-dependentes zangam-se com os outros pela falta de gratidão e reconhecimento, chegando ao ponto de sentir uma raiva incontrolável sobre os outros e sobre si próprios.

Este ciclo deixa a pessoa co-dependente ainda mais frágil porque deu tudo e afinal não mudou nada. Na verdade, a pessoa co-dependente ajuda o outro a perpetuar os seus problemas e a desresponsabilizar-se dos seus actos. Quando estas relações atingem um ponto de  ruptura, a pessoa co-dependente tende a procurar outra pessoa problemática para dar início a um novo ciclo.

A recuperação da co-dependência inicia-se pela tomada de consciência de que a pessoa precisa de centrar-se em si mesma, desprendendo-se da adição ao outro, procurando ajuda para identificar as suas vulnerabilidades e os vazios que tenta preencher através da dedicação aos outros. Quando as pessoas começam a gostar de si mesmas, a cuidar das suas feridas e a sará-las, quando aprendem a expressar os seus sentimentos e necessidades de forma adequada, as pessoas ganham noção dos seus limites e ganham perspectiva sobre si próprias.

Quando as pessoas gostam de si mesmas vão tender a procurar pessoas que as valorizem e respeitem pelo o que elas são. O ciclo da co-dependência pode ser interrompido e desfeito quando a pessoa co-dependente compreende que a resolução do seu problema reside em si próprio. Reside em tomar responsabilidade por si, tomar conta da sua vida e assim ficar disponível para poder verdadeiramente amar.

Sugestão de leituras sobre este tema:
“Vencer a Co-Dependência – Como Deixar de Controlar os Outros e Cuidar de Si”, Melody Beattie, Sinais de Fogo
“Mulheres que Amam Demais”, Robin Norwood, Sinais de Fogo

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Vida Dupla

Tenho 45 anos, sou casado e tenho um filho. Tive a minha primeira relação com um rapaz, tinha eu 12 anos, sempre tive atracção pelo sexo masculino, casei com 21 anos, pensava que os meus desejos e pensamentos eram apenas fantasias malucas. Vivo num eterno conflito comigo mesmo. Às vezes penso que vou explodir, tenho desejos fortes incontroláveis, já pensei em me assumir, mas ao mesmo tempo tenho muito medo em tomar uma decisão precipitada.

Muitas pessoas apresentam conflitos que resultam das suas opções não serem coerentes com os seus desejos internos. Ao contrário do que alguns pensam a orientação sexual não é uma opção mas um processo interno que se define ao longo do desenvolvimento do individuo. Os desejos e fantasias do leitor apontaram desde cedo para uma direcção homossexual que foi mesmo concretizada e posteriormente transformada numa fantasia para que pudesse viver de acordo com o que era esperado por si socialmente.

Esta condição a que muitos se submentem acaba por causar grande sofrimento para a pessoa e sentimentos contraditórios. O indivíduo sente-se desonesto consigo mesmo e com os outros o que provoca um descomforto permanente e a sensação duma vida dupla. Paradoxalmente, o desejo reprimido acaba por ser muito dificil de tolerar levando a que muitos individuos optem por enfrentar os obstáculos inerentes à assunção duma orientação sexual diferente.

O leitor deverá ponderar sobre as consequências de se assumir ou não se assumir numa perspectiva da sua vida futura como um todo. Viver de uma forma mais autêntica consigo mesmo implicará relações mais autenticas com os outros e desde logo coragem para enfrentar as mudanças que necessáriamente irão ocorrer. Por outro lado, as pessoas que gostam verdadeiramente de si permanecerão próximas. As pessoas que não o aceitarem, transportarão porventura outro tipo de conflitos ou preconceitos alheios à sua decisão. Será vantajoso o leitor recorrer a apoio psicoterapeutico, leituras sobre o tema e mesmo procurar o apoio de familiares ou amigos com quem possa partilhar as suas preocupações. Apesar das dificuldades para gerir este processo, os sentimentos de alívio, liberdade e maior congruencia justificam os meios para alcançar os fins.

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Carta dos Direitos Pessoais

  1. Eu tenho o direito de pedir o que eu quero.
  2. Eu tenho o direito de dizer “não” a pedidos e exigências que eu não posso atender.
  3. Eu tenho o direito a expressar todos os meus sentimentos – positivos e negativos.
  4. Eu tenho o direito a mudar de opinião.
  5. Eu tenho o direito de cometer erros e de não ser perfeito.
  6. Eu tenho o direito de seguir os meus valores e crenças.
  7. Eu tenho o direito de dizer “não” a tudo aquilo que eu não me sinta em condições de realizar, que seja pouco seguro ou que entre em conflito com os meus valores.
  8. Eu tenho o direito de determinar as minhas prioridades.
  9. Eu tenho o direito de não me sentir responsável pelas acções, sentimentos ou comportamentos dos outros.
  10. Eu tenho o direito de esperar honestidade dos outros.
  11. Eu tenho o direito de estar zangado com alguém que eu amo.
  12. Eu tenho o direito a ser eu próprio e a ser único.
  13. Eu tenho o direito de expressar medo.
  14. Eu tenho o direito de dizer: “Eu não sei”.
  15. Eu tenho o direito de não dar desculpas e justificações para o meu comportamento.
  16. Eu tenho direito ao meu espaço e tempo.
  17. Eu tenho o direito a ser brincalhão.
  18. Eu tenho o direito de ser mais saudável do que aqueles ao meu redor.
  19. Eu tenho o direito de sentir-me seguro e de viver num ambiente protegido.
  20. Eu tenho direito a fazer amigos e a sentir-me confortável quando estou com os outros.
  21. Eu tenho direito de mudar e de crescer.
  22. Eu tenho o direito que os outros respeitem as minhas necessidades
  23. Eu tenho o direito de ser tratado com dignidade e respeito.
  24. Eu tenho o direito a ser feliz.

(tradução de “Bill of Personal Rights”, autor desconhecido)

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Falta de Desejo

Somos um casal há dez anos. No início o desejo sexual era bastante forte, mas as coisas foram esfriando com o tempo, o que pensamos ser natural. Queríamos saber se existe alguma forma de podermos recuperar esse desejo forte um pelo outro como era no início?

É um facto que a rotina e a acomodação à vida de casal pode diminuir o desejo no casal. Não é normalmente erótico executar tarefas domésticas, discutir despesas, ver a pessoa chegar a casa cansada do trabalho. Existem no entanto várias possibilidades de “animar” o desejo num casal instalado na relação. O nosso lado erótico está intimamente associado às nossas fantasias. Poderá discutir com o seu companheiro (a) quais são as vossas fantasias e planear realizá-las, atendendo a todos os detalhes que as tornam particularmente excitantes para si e para o outro. A fantasia sexual alimenta-se da criatividade, da literatura erótica, dos filmes eróticos ou pornográficos, da observação dos outros…usar uma determinada peça de roupa pode ser extremamente erótico para o seu companheiro(a) e para si!

A fantasia erótica está muitas vezes associada a cenários de transgressão. Cada casal e cada indíviduo tem uma concepção subjectiva do que será trangressor para si a até que ponto é tolerável trangredir. Enquanto para uns, recorrer a brinquedos sexuais ou ter sexo na praia será trangressor e aceitável, para outros pode implicar outras situações de maior risco tais como sexo num lugar público. A exposição é aliás outra forma de estimular a sexualidade no casal. Ao contrário do que se poderia pensar, sairem à noite e dançarem juntos perante os olhares e desejo dos outros, acaba por valorizar e estimular o desejo pelo seu companheiro(a).

Outras receitas mais conhecidas como passar férias num sítio exótico ou um jantar romântico implicam a quebra da rotina dum casal saudável e o relembrar de como é gratificante quando o desejo se associa ao afecto pela pessoa amada. Em suma, o reanimar da sexualidade, tal como outras áreas da relação presupôem imaginação, planeamento e investimento pessoal. Contudo, as questões relacionadas com a falta de desejo poderão ter motivações psicológicas mais complexas relacionadas com a história e estrutura do indivíduo e a dinâmica da relação. Nesses casos será aconselhável consultar um terapeuta para auxiliar o casal a identificar os factores inconscientes perturbadores do desejo e encontrar formas de os contornar.

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Apresentação

Um novo ano evoca desejos e projectos novos. A criação deste blog é um desses desejos há muito pensado mas só agora possível de ser concretizado de forma mais sistemática. O blog vem substituir a informação sobre o meu trabalho até agora apresentada num formato de site e integrar novas componentes.

Pretendo assim desenvolver um meio de comunicação mais interactivo com as pessoas que desejam informações sobre psicoterapia e  psicologia clínica. Começo por apresentar informação específica sobre a minha forma de trabalhar e algumas questões surgidas em colaborações com revistas.

Planeio integrar artigos sobre temáticas relevantes nesta área de acordo com os  interesses dos leitores e responder a questões que desejem colocar. Serão também sugeridas e comentadas outras leituras tal como é habitual na bloguesfera.

Uma secção será dedicada aos temas mensais discutidos nas reuniões de clínicos da Associação Lavoisier, instituição sem fins lucrativos dedicada á prevenção e atendimento de pessoas na área da saúde mental.

Os votos de um excelente 2009 cheio de saúde!

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